segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A quem assemelhavam se os antigos Egípcios

Todas as tecnologias egipcias já existiam sob o reinado do faraó Djoser

O Primeiro Rei da Terra Era Africano/Cheikh Anta Diop

Papa Francisco manda recado para Elite Brasileira escravocrata

O surgimento do homem branco na história da humanidade

Apropriação cultural / Unesp Notícias

Italo Calvino sobre a discriminação racial e a luta pelos direitos civis nos EUA. Por Camila Nogueira



Postado em 26 Feb 2017
por : ra


Os trechos abaixo foram retirados dos diários que Italo Calvino (1923 – 1985), escritor italiano nascido em Cuba, escreveu durante uma viagem que fez, no início dos anos 60, aos Estados Unidos.
Qual a importância do dia 6 de março de 1960 para o senhor?
É um dia que não esquecerei enquanto for vivo. Eu vi o racismo com meus próprios olhos, o racismo de massa, aceito como uma das regras fundamentais da sociedade. Presenciei um dos primeiros episódios de luta por parte dos negros sulistas – que terminou em uma derrota. Após décadas de completa imobilidade, os protestos por parte dos negros foram iniciados em um dos piores estados segregacionistas do país. Alguns obtiveram sucesso, sob a liderança de Martin Luther King, um ministro batista, adepto da não-violência.
De que episódio estamos falando?
A cena aconteceu no capitólio de Alabama. Os estudantes negros (da universidade negra) declararam que protestariam pacificamente naquela região contra a expulsão de nove de seus colegas, que tinham tentado se sentar na cafeteria dos brancos em Court Hall. Perto da uma hora e meia, eles se encontraram na igreja batista próxima ao capitólio. Mas este já estava repleto de policiais com cassetetes e da Polícia Rodoviária com seus chapéus de caubói, coletes azul-turquesa e calças-cáqui. As calçadas estavam cheias de brancos – em sua maioria brancos pobres, que são os maiores racistas, prontos para usar seus punhos, jovens delinquentes que atacam em grupo (sua organização, que é somente ligeiramente clandestina, chama-se Ku Klux Klan), mas também pessoas de classe média alta, famílias com crianças, todos lá para assistir e gritar obscenidades contra os negros.
Qual era a atitude da multidão?
Ela variava entre o escárnio, como se estivessem vendo macacos exigindo direitos civis – escárnio genuíno, sentido por pessoas que jamais imaginaram que os negros viriam, um dia, a reivindicar tais coisas –, e o ódio.
Nesse momento os negros ainda estavam dentro da igreja?
Sim. Quando estavam prestes a sair, a polícia bloqueou os degraus do capitólio, enquanto a multidão bloqueou todos os pavimentos. Agora furiosa, a multidão gritava “Saíam daí, negros!” Os negros desceram os degraus de sua igreja e começaram a cantar um hino; os brancos passaram a uivar e a insultá-los. A polícia e a milícia permaneceram a postos, se precisassem evitar incidentes.
Não havia nenhum branco favorável à população negra?
Havia um ministro metodista, o único homem em Montgomery corajoso o bastante para assumir uma posição. Como resultado, a Ku Klux Klan bombardeou sua casa e sua igreja um par de vezes.
Hmmm…
E então começou a pior parte. Os negros saíram da igreja pouco a pouco. Uma parte deles entrou em uma rua que não fora ocupada pelos brancos, mas outros desceram em grupos pequenos a Dexter Avenue, andando silenciosamente com as cabeças erguidas em meio a ofensas e a ameaças. A cada insulto ou dito espirituoso proferido por um branco, outros iguais a ele, homens ou mulheres, punham-se a rir, por vezes com uma insistência quase histérica, mas também por vezes de maneira afável, e essas pessoas, suponho, são as mais cruéis – esse racismo esmagador combinado com afabilidade.
Havia muitas mulheres negras?
Sim, e as jovens negras eram as mais admiráveis. Elas caminhavam em grupos contendo duas ou três, e os valentões cuspiam no chão diante de seus pés e bloqueavam o caminho seguido por elas, obrigando-as a desviar deles. Enquanto ouviam abusos e por vezes eram agredidas, as jovens negras continuavam a conversar entre si, como se nada de detestável estivesse acontecendo – ou como se estivessem acostumadas a essa cena desde o seu dia de nascimento.
O senhor chegou a conhecer Martin Luther King. O que pensou dele?
Ele é um político cuja única arma é o púlpito. A sua não-violência é a única forma de luta possível e ele a usa com a habilidade política controlada que a aspereza das condições em que ele e seus companheiros se desenvolveram ensinou-lhe. Os líderes negros – cheguei a conhecer muitos deles, de diferentes tendências – são pessoas lúcidas e determinadas, totalmente desprovidos de sentimentos de autopiedade.
Em sua viagem, o senhor conviveu tanto com militantes negros quanto com a famosa aristocracia sulista. Qual a sua opinião a respeito da última?
A aristocracia do sul dos Estados Unidos me dá a impressão de ser particularmente burra em seu esforço contínuo para resgatar as glórias da Confederação; esse patriotismo, que os leva a se dirigir a você como que convictos de que você compartilha de suas emoções, é algo mais insuportável do que ridículo. A questão racial é algo maldito: por um século, o sul dos Estados Unidos não falou nem pensou em nada além disso, só nesse problema, os progressistas e os reacionários igualmente.
Algo a acrescentar?
O que conta é o que somos, e o modo como aprofundamos a nossa relação com o mundo e com os outros, uma relação que pode envolver tanto o amor por tudo que existe quanto o desejo de que tais coisas passem por transformações.
Camila Nogueira
Sobre o Autor
Aos 19 anos, Camila Nogueira estuda Letras na USP. Já aos 10 anos, constatou que seus maiores interesses na vida consistiam em sua família, em cerejas e em Machado de Assis. Em uma etapa posterior, adicionou à sua lista ópera italiana e artistas coreanos.

Justiça ordena que Danilo Gentili explique acusação contra Lula

(Foto: divulgação)
Uma decisão em segunda instância do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que o “humorista” Danilo Gentili, atualmente no SBT, explique formalmente de onde tirou a informação que baseou uma mensagem publicada por ele nas redes sociais no ano de 2015. Trata-se de um “tuíte” divulgado na conta pessoal do humorista, onde Gentili afirmou que Lula “forjou um ataque (à bomba, na sede do Instituto Lula) para sair de vítima”.
Instituto Lula forja ataque pra sair de vitima e o máximo q conseguem com isso é todo mundo dizendo "q pena q o Lula não tava lá na hora"
De fato, no dia 30 de julho de 2015, uma bomba foi arremessada na entrada do Instituto Lula, e a autoria do atentado segue sendo investigada até hoje. No dia seguinte ao fato, Gentili publicou a frase acusatória em questão em sua conta no Twitter. Os advogados de Lula, então, ingressaram na Justiça com o chamado “pedido de explicações”, que é uma medida jurídica que antecede um processo penal por calúnia ou difamação.
Isso significa que, agora que a Justiça ordenou que Gentili explique de onde tirou a informação que eventualmente sustente sua acusação. Se ele não conseguir explicar ou provar que Lula forjou o ataque ao instituto, como afirmou, será processado por difamação. Se condenado, a pena é de três meses a um ano de detenção.

Uma hora após a postagem, o apresentador ainda se gabou de ter “acertado de novo” com seu comentário, diante da reação dos admiradores do ex-presidente Lula, que saíram em sua defesa.

Cartola o poeta do povo e das rosas

domingo, 26 de fevereiro de 2017




Caetano detona Temer em show e povo vai a loucura


No circuito multicultural de Salvador, o Pelourinho viveu no fim da noite da última sexta-feira o melhor do carnaval. No palco do largo do Centro Histórico uma homenagem aos cinquenta anos da Tropicália reuniu Gilberto Gil, Caetano Veloso, José Carlos Capinam, Alexandre Leão, Claudia Cunha e Moreno Veloso no mesmo palco.




Uma das maiores expressões do Tropicalismo, Caetano não iria se apresentar, mas depois de um breve show e de Capinam subir ao palco e explicar as ideias do movimento, a atração foi anunciada. Caetano disse que não havia ensaiado e que iria improvisar.




No fim, o cantor e compositor cantou “Alegria, alegria”, acompanhado pelo público e recebeu de volta “Fora Temer”. “Eu agradeço muito por estar aqui, nem me organizei para tocar, mas vim. Dei uma passadinha porque eu adoro carnaval e tenho orgulho do Tropicalismo. Meu filho vai tocar e Gil vai cantar e pronto, tá perfeito”, disse Caetano, antes de subir ao palco.
Depois de mais alguns ritmos, Gilberto Gil foi chamado e ovacionado pelo público formado de uma mistura de fãs nativos, de outros Estados e de turistas internacionais. Em seguida cantou “Soy Louco por ti América”, uma parceria com Capinam e interpretada primeiramente por Caetano. No repertório ainda constaram Marginália II, Domingo no Parque e Toda Menina Baiana.
“A Tropicália deu espaço para muitas vertentes no carnaval baiano, como os blocos afro, a axé music. É maravilhoso receber essas homenagens” disse Gil. Após a participação de Gil, Moreno Veloso, filho de Caetano, deu continuidade à apresentação, executando, ao lado de Cláudia Cunha, músicas em homenagem ao Olodum e ao Ilê Aiyê.




sábado, 25 de fevereiro de 2017

“A sociedade branca bebe, come e dança a cultura negra”: Antônio Pitanga

Pai e filha, os atores Antônio e Camila Pitanga falam sobre a política e a história do negro no Brasil e sobre o documentário biográfico ‘Pitanga’

porLarissa Ibúmi Moreira no Carta Capital 
Marcando sua estreia como cineasta, Camila Pitanga esteve na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes para a exibição do aclamado Pitanga, documentário dirigido em parceria com Beto Brant, que conta a trajetória artística, política e filosófica de seu pai, o também ator Antônio Pitanga, em conversas descontraídas com seus amigos, ex-amores e companheiros de profissão.
Projetado em praça pública, no histórico Largo das Forras, o filme sensibilizou a plateia, fez rir e inspirar, alçando o prêmio de melhor longa-metragem pelo júri popular. Está previsto para estrear nos cinemas em abril deste ano.
Os Pitanga, pai e filha, conversaram com CartaCapital sobre o documentário, a questão da mulher negra e a política e a história do negro no Brasil. Confira:
CartaCapital: No documentário, você afirma que negros e mulheres devem se unir, pois compartilham um lugar comum de opressão nesta sociedade. Considerando que a mulher negra sofre duplamente pelo racismo e pelo machismo, como vocês veem o papel do homem negro na luta das mulheres negras?
Antônio Pitanga: Por que não ser aliado? Se acontecer alguma revolução cultural ou social, ela será feita por homens negros e mulheres negras. Por que eu vou ser superior, porque sou homem? Essa cultura machista foi esculpida pelo colonizador branco. Não é minha, não é nossa. Tenho a certeza absoluta que se trata de uma pobreza intelectual e de sentimentos quando o negro não entende a mulher negra e quer fazer dela exatamente o que o branco faz com ele.
Por isso eu entendo minha mãe, Maria da Natividade. Filha e neta de escravas, ela tinha um comportamento de jamais abaixar a cabeça – e trabalhava pros brancos sem salário. Não é porque ela está como uma serviçal que entendia seu potencial e sua riqueza intelectual. Tudo de ruim foi colocado para nós e vamos querer dominar a mulher negra, fazer o que o branco faz com a gente?
Nossa contribuição nessa sociedade brasileira é muito maior. Essa sociedade branca, que não reconhece a gente, bebe, come e dança a nossa cultura. Até na maneira de se expressar, tudo vem de nós. A formação do homem vem da África. Mas temos dificuldade de entender.

Camila Pitanga: No documentário, a personagem da Léa Garcia fala “eu não vou ser escrava nem de branco, nem de negro”. Infelizmente, essa cultura escravocrata não é só uma relação de submissão e de opressão do branco sobre o negro. Muitas vezes, ela é também mantida na relação do negro com o negro e do negro contra a negra.
CC: Antônio, você viveu um período no continente africano, em missão cultural. Como essa experiência se refletiu em sua vida enquanto um artista negro brasileiro?
AP: A África sempre foi um desejo. Vim de uma família muito pobre e não entendia, quando criança, que teria essa chance de ir para lá. Quando enveredei para o mundo artístico, já comecei a enxergar a possibilidade de isso acontecer.
Escolhi uma profissão que é uma janela para o mundo. Os artistas, todos éramos considerados marginais. Eu já era perseguido e já compreendia o preconceito da frase “é negro e ainda vai ser artista?”. Escolhi “vou por ali”, contra esse sistema.
Eu não fui para Europa, como tantos amigos que tiveram que sair do país em 1964. Escolhi o exílio na África porque queria saber de qual África eu tinha vindo. Tinha noção de que a minha parte e da minha família foi queimada pelo Rui Barbosa. Aqueles papéis que eu poderia buscar, eu não tinha mais.
Saí do Brasil pela porta da frente, em missão cultural, em pleno governo Castelo Branco, porque tinha uns fãs no Itamaraty que admiravam o nosso trabalho.
E eu escolhi passar quase dois anos caminhando por alguns países que tivessem o dialeto, a língua, as danças, a culinária, mais próximos e que eu pudesse entender e me achar. Escolher a África já é uma atitude política.

Com o apoio dos camaradas do Itamaraty, que eram fãs do Cinema Novo, consegui exibir três filmes, Barravento, Ganga Zumba e Esse Mundo é Meu para os presidentes de países como Gana, Nigéria, Senegal. Queria mostrar também como os negros brasileiros se comportavam e como estavam.
Era também pra eles uma revelação primeira. Com a luta pela consciência dos seus direitos e para expulsar o colonizador, não tinham tempo pra ainda entender o Brasil.
Fiz essa caminhada para entender o ser Pitanga, de onde essa família tinha saído, já que nós viemos de vários carregamentos. Viajei para estudar, debater, mostrar o negro brasileiro e como nós estávamos reagindo à opressão. Tive muitos problemas com embaixadores da África Branca, que não entendiam o que eu estava fazendo ali.
CC: Nessa África revisitada, o que você descobriu?
AP: Eu achava que vinha da Nigéria e realmente sou de lá, de Daomé, me achei ali. Isso me humanizou. Já tenho 77 anos e fico tentando entender essa incapacidade da raça negra de não entender o coletivo.
Meu ídolo em toda essa formação do Brasil é o Luiz Gama. A gente tem que entender a trajetória desse rapaz, advogado, filho de Luisa Mahin e de um fidalgo. Com 10 anos, ele é colocado na mesa de jogo e faz parte de um lote [de escravos] que vai para o Rio de Janeiro. Era essa criança, nascida livre e tornada escrava.
Como rábula [nome dado a quem advoga sem ter diploma], Gama consegue livrar do açoite centenas de milhares de negros. O enterro dele foi disputado a tapa pra segurarem o caixão. Ele botava o dedo na ferida e convencia a sociedade branca que ela estava errada.
Fico com dificuldade de entender como nossos iguais não elegem uma fonte de conhecimento.Eu sou de uma família com um percentual de representatividade acima de 50%, nós negros somos maioria e não nos entendemos. Que dificuldade é essa?
As lutas do passado continuam. A dívida é muito grande e antiga com a comunidade negra. Meus filhos não tiveram nenhuma perseguição, mas não é por isso que eles não têm essa consciência.
Quando você liga a televisão pra ver uma dramaturgia, o percentual é de quase zero negros, mas, mesmo assim, a maioria assiste e não te elege, prefere eleger o branco de olhos azuis. O meio de comunicação é o “vil metal”. É preciso eleger os seus, num reconhecimento de si mesmo.
Eu não quero enxergar o mundo por uma fresta, quero abrir todas as portas e janelas, ver a claridade entrar. Eu seria muito mais se a nossa sociedade [elegesse] Ruth de Souza, Léa Garcia, Zezé Motta. Precisamos reconhecer o seu valor, oferecer o mesmo reconhecimento expressado que o branco tem. Você pega um Tarcísio [Meira] – nós viemos da mesma época – onde está o Tarcísio e onde está o Antônio Pitanga?
Estou firme, mas não pelo reconhecimento de nossa sociedade. Já o Tarcísio está vários corpos na minha frente. Hoje temos pessoas como a Camila [Pitanga], como a Tais [Araújo], a Sharon Menezes, o Lázaro Ramos – tiro o chapéu pra eles.
No meu caso, no de Milton, Abdias [do Nascimento] ou Grande Otelo, o preconceito era radical. Agora já estamos em uma sociedade que reconhece o talento deles. Nós, no passado, éramos desbravadores, não tivemos o peso do reconhecimento de nossa sociedade.
Claro, ainda há um mito da democracia racial. Se você assistir os filmes que eu fiz, a altivez do ator e do personagem é a mesma. Precisamos criar aliados. Entender que você tem uma janela e pode compor com outras pessoas.
CC: Você pode adiantar pra nós sobre o seu novo projeto, um filme que vai contar a Revolta dos Malês?
AP: Os Malês eram os negros do norte da África, que falavam árabe e tinham conhecimento da Física, da Ciência e da Aritmética. Esses caras fizeram uma aliança com os negros do candomblé pra tomar o poder. Não é a história de negros coitadinhos do Pelourinho, são negros que detinham o conhecimento em 1835. Eles são de religião islâmica e compuseram um exército com os negros do candomblé, do catolicismo, e tiveram a capacidade, esse gesto nobre, de compor um exército assim.
Eu sou malês. Então, quero ter essa altivez, essa generosidade, essa maneira de enxergar o outro e crescer com outro, embora tenha uma opinião diferente. Não é porque sou negro que tenho que ser sambista ou jogador de futebol. Não é por isso que vou deixar de ser negro.
Eu quero ter minha opinião. Se eu não fui um negro alforriado, não fui um escravo, sou um negro liberto e saí das correntes. Mandar em mim não dá. Eu prefiro ser esse negro em movimento, para ter a capacidade de pensar, avançar e recuar. Por isso, nada contra os movimentos negros, mas eu sou um capoeirista mental. Depois que entendi que tinha asas para voar, quero voar.
CC: Você tem encontrado dificuldades para a realização do filme?
AP: Quero contar uma história da nossa família, da nossa sociedade e dos nossos irmãos. Sobre onde nasce o levante mais importante que aconteceu nesse País, quando os negros oprimidos entenderam que eram mais de 60% da população baiana. Muitos malês já vinham com culturas de liberdade da África e acreditavam que iriam inaugurar o islamismono Brasil. Eles tinham uma estratégia de tomar o poder, como tinha Napoleão Bonaparte.
Não é só contar a nossa história, mas a história brasileira. O Brasil não conhece o Brasil. É uma maneira de você, através dos Malês, entender a própria história desse país e também do negro entender sua própria história.
Ainda estou captando recursos para esse projeto, mas digo abertamente que estou ali como uma missão: ele não é meu, estou ali como instrumento.Gostaria de entregar esse filme ao Ministério da Cultura e ao Ministério da Educação para ser exibido em praça pública, nas comunidades, nas vielas, nos becos. Um filme que a gente tenha oportunidade de revisitar nossa própria história.
CC: O que mudou durante os governos Lula e Dilma no meio artístico e social? Como você vê o contexto político que estamos vivendo? 
AP: Eu já vivi várias épocas: a Guerra Mundial, o golpe do Dutra, Getúlio Vargas, o golpe de 1964. Vi o mundo dar uma guinada de 180 graus, toda a revolução, os direitos das mulheres, a chegada da camisinha, da pílula, do homem na Lua. Vi até um zepellin em 1949.
Vi os Filhos de Gandhi rasgarem o ventre da Bahia quando era proibido o negro desfilar. Vi Grande Otelo, Ruth de Souza e vi Leá Garcia ganhar a Palma de Ouro. Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho – pessoas como eu, que estavam na estrada, me passaram o bastão e eu continuei essa história.
Vi a chegada do negro no cinema. Evoluímos e tomamos os espaços. Hoje, em 2017, eu vejo o negro chegar um pouco mais. Conquistamos muitas coisas na política, mas vejo a regressão e que tivemos algum tempo no poder, mas sem tomar conta de todo esse ganho.
Se tivéssemos tomando conta, não viveríamos essa situação delicada de eu estar com 77 anos e viver outro golpe.
Agora, teremos que reinventar. Eu quero ter força pra viver de novo os momentos que vivi com a distribuição de renda feita por Lula e Dilma. Esse filme eu já vi.
Estou muito preocupado, porque agora são meus filhos, netos e bisnetos, são esses jovens que estão começando a caminhar com suas próprias pernas. Precisamos respirar um pouco e pensar de que maneira vamos enfrentar essa tempestade.
É um momento que jamais pensaria, de um grau de embrutecimento da nação muito grande. Já lutamos contra isso. É 2017 e estamos passando por isso de novo? Que capacidades teremos pra detectar o grau dessa tempestade e continuar de pé com dignidade de entender e participar da luta do outro? É um momento que estou querendo entender.
CP: Acho estamos vivendo um momento no qual as pessoas querem se entrincheirar em um só lugar. Precisamos ter um entendimento dialético da vida, no qual a gente não pode ficar num só lugar. Precisamos repensar, dialogar com todos e se colocar na posição de todos. Uma mulher, claro, principalmente as mulheres negras, sofrem de maneira atroz e doída uma série de opressões que eu mesma ainda não tenho a dimensão na minha carne. Mas, como ser humano, estou aberta para ver o outro. Eu sei disso e sei também precisamos falar muito disso, gritar muito, pra contrapor.
CC: Antônio, qual o conselho você daria hoje para essa nova geração de artistas negros?
AP: O artista negro, década a década, tem-se colocado de uma maneira maravilhosa com a música, as artes plásticas e com a dança. Mas em que momento a gente entende essa contribuição no coletivo, que não seja só pra um? Que não seja só para dançar pra alguém bater palma?
O conselho que eu dou é que o jovem possa entender sua raiz, possa se comunicar mais com o outro – o outro tem muita história pra contar, já que nós viemos de várias Áfricas.
Eu perguntaria: de que maneira você pode alimentar o outro e vice-versa? Para quem você está escrevendo, grafitando, contribuindo? Você tem que entender quem é você e qual é o seu papel.
E é um papel valiosíssimo, pois seus irmãos ainda são perseguidos, oprimidos, sofrem preconceito, suas irmãs, ganham menos do que o homem negro.
É a revolução do conhecimento. Procure olhar no espelho, quem sou eu? Acho que é entender seu habitat intelectual, sua formação, a maneira de discutir, defender e colocar sua questão, sem medo de se expressar.
A gente acha que não pode incomodar. Eu quero incomodar, vim para incomodar. Às vezes eu fico muito triste com nossos irmãos, que querem mais contentar uma sociedade opressora do que entender os nossos.
*Larissa Ibúmi Moreira é historiadora, feminista interseccional e escritora.

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