sexta-feira, 9 de junho de 2017

Negritude no Brasil

Basta olharmos ao redor para ver quem são os menos favorecidos, ou os que se submetem a subempregos
20/11/2012 - 05h00 | Victor Almeida Filho
Assumir-se negro/a no Brasil é uma das condições mais complicadas para exercer a plena cidadania. E quem assume a sua negritude deverá também assumir os riscos que isso acarreta.

O leitor poderá até contestar esta minha argumentação, dizendo que as oportunidades hoje são iguais para todos, mas se for adiante e se debruçar de forma responsável sobre os dados de desigualdades e discriminação no Brasil, perceberá que a realidade da população negra é ainda hoje perversa. Basta olharmos ao redor para ver quem são os menos favorecidos, ou os que se submetem a subempregos.

A libertação da escravatura em 1888, não trouxe o ressarcimento de anos a fio de exploração. Deu aos Negros a liberdade, mas não lhes conferiu uma indenização digna por parte da sociedade. Muitos setores da elite brasileira continuaram com o preconceito. Prova disso, foi a preferência pela mão-de-obra europeia, que aumentou muito no Brasil após a Abolição. A maioria dos negros encontrou grandes dificuldades para conseguir colocação no mercado.

Os negros são grande maioria de nossa população; entretanto, eles não têm ainda a maioria das oportunidades. Se observarmos os bancos das faculdades perceberemos o reduzido número de negros. Na Igreja isso não é diferente, são poucos os que assumem a radicalidade do sacerdócio, num passado não muito distante, para ser padre na Igreja católica era preciso “ter boa aparência” e até hoje precisam conviver com o preconceito e a discriminação em relação às religiões de matriz africana.

Estudo do Ipea intitulado “Retrato das Desigualdades de gênero e raça”, aponta que no Brasil “os negros são grande maioria entre os mais pobres, estão nas posições mais precárias do mercado de trabalho e possuem os menores índices de educação”. 69% dos domicílios que recebem Bolsa Família, 60% dos que recebem Benefício de Prestação Continuada e 68% dos que participam do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil são chefiados por negros.

Na verdade, os países hoje chamados desenvolvidos, descobriram que para uma nação ser considerada como tal, precisa diminuir as diferenças sociais. Nesse sentido, a adoção de cotas raciais não é uma invenção brasileira, países como os EUA e a África do Sul aumentaram as chances de os negros entrarem no ensino superior dessa forma. Foi no ano 2000 que as cotas começaram a ser implementadas por aqui. Essa pode ser uma alternativa temporária na expectativa de que o ensino público brasileiro forme alunos capazes de disputar as vagas de igual por igual com estudantes das escolas particulares.

O Supremo Tribunal Federal aprovou a política de cotas raciais nas universidades públicas. A decisão vale para todas as universidades públicas que já usam ou pretendem implantar o sistema. Na Universidade de Brasília, 20% das vagas do vestibular são para a cota de negros. Esses candidatos concorrem entre si. Isso, porém, não isenta os responsáveis de providenciar boas escolas nas áreas carentes.

A sociedade norte-americana, que elegeu Barack Obama presidente, a seu tempo e a seu modo está se confrontando com o violento conflito racial que sempre a caracterizou. Enquanto isso, no Brasil do “racismo cordial” ações afirmativas são frequentemente questionadas. Quando observados dados do IBGE de 2010 o fato fica mais evidente: dentre as pessoas ocupadas os amarelos e os brancos tiveram salários médios 37,6% e 26,9% acima da média. Os pardos, negros e indígenas receberam salários 29%, 31,3% e 36% abaixo da média.

Felizes aqueles que descobrem, apesar do preconceito, a importância de assumir sua negritude e a riqueza de se vivenciar a cultura da terra-mãe de todos, a África. Por isso, a celebração da Consciência negra não se reduz a etnia negra, mas pode envolver as outras. Nesse sentido, entre as diversas pastorais da Igreja, uma se destaca quando nos referimos à Negritude: a Pastoral do Negro. Ela busca animar os grupos negros católicos; incentiva o surgimento de novos e as Igreja plurais. Hoje é uma data emblemática, pois foi num 20 de Novembro que Zumbi dos Palmares preferiu tombar lutando no quilombo da liberdade a ser consumido pelo engenho da economia açucareira. Por isso, 20 de Novembro é memória de resistência, convite à reflexão.

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